UNIVERSIDADE, SOLIDARIEDADE E A QUESTÃO DO REFUGIADO: UMA POSIÇÃO CONFESSIONA
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Introdução

            A palavra de ordem atual é “superar a crise”. No entanto, o que perturba nossa sociedade não é apenas o colapso político e econômico de nossa nação ou os apuros na saúde devido a ameaças de vírus como o Zika. Há uma crise humanitária mundial. A preservação da vida é o tema central do drama dos refugiados. Há crescentes ondas de refugiados que se espalham por países da Europa e que alarmam o mundo, sobretudo por envolver a morte de crianças e famílias inteiras. Diante disso, nosso país tem se mostrado muito solícito – mais do que alguns outros países – para conceder asilo e facilitar a entrada legalizada de refugiados. Nesse afã, cabe uma pergunta inquietante: Estamos prontos para receber e atender essas pessoas?   

Desde as grandes imigrações do século XIX, nosso país recebe e mantém uma convivência harmoniosa com outras culturas, religiões e etnias. Todavia, o dilema atual é diferente de um processo imigratório. Refugiados não são essencialmente imigrantes. Eles não deixaram seu país, suas casas, seus parentes e amigos para tentar a sorte em outro lugar. Eles saíram de sua terra e deixaram tudo para trás por motivo de força maior, de fato, para a preservação da própria vida. Ademais, é provável que um imigrante tenha um caminho de volta, quando as expectativas se frustram. Um refugiado dificilmente mantém essa esperança.

Um refugiado é alguém perseguido, oprimido e ferido, seja por questões políticas, étnicas ou religiosas. São pessoas que tiveram direitos básicos usurpados. Então, ao chegarem a outro país, trazem em sua bagagem muito mais do que saudade; antes, vêm acompanhados do medo, da dor, da frustração, da injustiça, da fome e da iminência de morte. Por isso, o refugiado é alguém que precisa de alimentação, moradia, emprego, e também de paz, segurança, justiça e direitos humanos. Sobretudo, ele carece de verdadeira solidariedade. Neste ponto, a Universidade é um ambiente adequado para discussões teórico-acadêmicas e práticas que tocam a crise dos refugiados.

A Universidade Presbiteriana Mackenzie, fundamentada na cosmovisão cristã, preconiza uma educação confessional propícia à tradução do conhecimento em prática. Com efeito, a Universidade propõe uma educação valorativa que inclui aprender a viver, bem como a plena execução da cidadania. Para tanto, o exercício da misericórdia, da verdadeira solidariedade, é parte essencial de nossos compromissos com os anseios de nosso Associado Vitalício, a Igreja Presbiteriana do Brasil.  

A Chancelaria da Universidade Presbiteriana Mackenzie, segundo suas atribuições, seus valores e seus princípios confessionais, tem a satisfação de oferecer à comunidade acadêmica a Carta de Princípios de 2016. Nosso intuito é discorrer sobre o tema da crise dos refugiados sob a ótica da cosmovisão cristã, que reconhece a presença, o controle e a autoridade de Cristo sobre a realidade. Ao fim, esta Carta de Princípios recomenda como a educação confessional cristã da Universidade pode alcançar transversalidade, permeância e transparência ao atentar para o dilema dos refugiados.    

 

1.      Uma vida digna para estrangeiros: um panorama histórico  

A tradição judaico-cristã dispõe de muitos séculos de registros históricos. A história que tem acompanhado essa tradição narra momentos de crise e, mais importante, revela verdades perenes para que a sociedade civil saiba lidar com as vicissitudes, no caso, como conviver harmoniosamente com pessoas de outras etnias, culturas e religiões. 

As experiências cristãs se entrelaçam com a história narrada nos primeiros cinco livros escritos por Moisés. Ainda que muitos séculos separem a história da nação hebraica dos dias atuais, nota-se que foram dadas instruções para gerir relacionamentos, bem como acolher aos que eram “de fora” dessa nação. Os estrangeiros, como eram chamados os que vinham abrigar-se e refugiar-se entre os hebreus, não podiam ser desprezados, oprimidos ou alienados. Na verdade, anteriormente o patriarca Abraão recebera a ordem de estender a destra de amizade e amor aos estrangeiros, fazendo-os participantes da aliança de Deus, o pacto de vida e amor (Gn 17.12). Desse modo, eles se tornavam parte da nação e, mais ainda, acessíveis às promessas divinas.

Por semelhante modo, quando os israelitas se preparavam para entrar e possuir a terra prometida, e, concomitantemente, ratificar sua condição como uma nação estabelecida, receberam a seguinte ordem: Não maltratem os estrangeiros que vivem na terra de vocês (Lv 19.33, NTLH). E a razão apresentada por Deus é bastante simples e ao mesmo tempo convincente: Eles devem ser tratados como se fossem israelitas; amem os estrangeiros, pois vocês foram estrangeiros no Egito e devem amá-los como vocês amam a vocês mesmos. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês (Lv 19.34, NTLH). Em outras palavras, o Deus revelado nas Escrituras assevera a unidade entre todos os povos, raças, línguas e nações por meio do vínculo da solidariedade.

A solidariedade é justamente a capacidade humana de se identificar com o sofrimento do outro, e isso implica ação. Não é apenas sentir-se consternado com o sofrimento alheio; antes, o solidário assume a dor de seu próximo para si mesmo. Sendo assim, a tradição judaico-cristã de fé e prática determina que ações deveriam ser empreendidas para efetivamente socorrer os estrangeiros. Por exemplo, uma parte da colheita de trigo, cevada e azeitonas deveria ser disponibilizada para eles (Lv 23.22). Finalmente, as mesmas leis, com deveres e direitos, eram oferecidas igualmente aos refugiados: A lei é a mesma para os estrangeiros que moram no meio de vocês e para os israelitas. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês (Lv 24.22, NTLH).

A assistência solidária aos refugiados, que teve início nos dias dos patriarcas e está presente na sedimentação da nação israelita, segue uma série de desdobramentos históricos até encontrar o ápice de seu ensino na pessoa e obra de Jesus Cristo. Em Cristo todas as coisas encontram seu cumprimento e sua plenitude. Jesus realizou ações deliberadas de misericórdia para com os estrangeiros (ver Mc 5.1-20 e Mt 15.21-28). E o Mestre não ensinou apenas com palavras e discursos: em sua infância ele mesmo e sua família tornaram-se fugitivos, refugiados. Jesus e sua família foram perseguidos e oprimidos por um implacável líder político, e, por isso, tiveram de fugir para o Egito e achar asilo naquela nação: [...] um anjo do Senhor apareceu num sonho a José e disse: —Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, pois Herodes está procurando a criança para matá-la. Então José se levantou no meio da noite, pegou a criança e a sua mãe e fugiu para o Egito (Mt 2.13-14).

Portanto, existe uma tradição histórica de orientação cristã, alinhavada com verdades absolutas e eternas, sobre o imperativo de ser solícito para com o refugiado em sua dor e sofrimento. Essa tradição de pensamento e de prática ocupou lugar determinante nas cidades que foram erguidas em torno da confissão de fé reformada. Vale acrescentar que esteve presente no ensino valorativo das universidades confessionais cristãs que surgiram nessas cidades. A seguir, apresentamos breve relato de um exemplo de solidariedade na formação do cidadão pleno, que está presente no estabelecimento das universidades confessionais cristãs.  

    

2.      A Universidade, a formação do cidadão e o ensino valorativo da solidariedade

A Reforma Protestante do século XVI foi um movimento de ordem eminentemente religiosa, mas com aplicações sociais, políticas e econômicas. A cosmovisão reformada abarca todos os aspectos da realidade humana. Assim, foi um movimento de retorno à tradição de pensamento e de ação da tradição judaico-cristã. Com efeito, retomou o ímpeto de solidariedade percebido nas verdades históricas do Antigo Testamento e ratificado plenamente na pessoa e obra de Jesus Cristo. Por isso, as cidades que foram erigidas sob os auspícios do cristianismo reformado demonstraram, com ações, o cuidado para com os estrangeiros.

Tal zelo esteve presente na vida de seus principais líderes. Dentre eles temos a figura de João Calvino (1509-1564). Calvino foi um modelo de cidadão cristão que procedeu em favor do próximo. Ele agiu deliberadamente para que a cidade de Genebra fosse receptiva ao estrangeiro. Sendo assim, um dos mais respeitados estudiosos do pensamento social de Calvino assevera que ele interveio constantemente junto às autoridades, tanto para eliminar a ociosidade quanto para combater o desemprego, que se tornava ameaçador quando os refugiados estrangeiros afluíam para a cidade de Genebra.[i] Em outro lugar, Biéler completa seu pensamento sobre as ações de Calvino, dizendo: Todavia, a chegada de numerosos refugiados a Genebra criou para a cidade delicados problemas trabalhistas. Calvino passa a enfrentá-los com exemplar lucidez.[ii] Por semelhante modo, Dr. Augustus Nicodemus Lopes, ex-Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que Calvino mantinha uma clara compreensão de que o seguidor de Cristo, ao oferecer auxílio aos refugiados, deveria contemplar inclusive os estrangeiros e refugiados que chegavam a Genebra.[iii]  

     Nesse mister, outro importante historiador brasileiro afirma: Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres.[iv]

 Ademais, observa-se que Calvino também tinha uma preocupação no âmbito educacional. Sobretudo, em seus esforços como fundador da Academia de Genebra – mais tarde a Universidade de Genebra –, que mantinha entre seus discentes uma maioria de estrangeiros: A Academia de Genebra foi fundada em 1559 e Calvino convidou Teodoro Beza para ser o seu primeiro reitor. Essa escola veio a tornar-se o seminário do calvinismo e o modelo para várias outras universidades que foram lideradas por grandes nomes, ex-alunos da Academia de Genebra. No ano da morte de Calvino a escola tinha 1.500 alunos matriculados, onde a maioria era de estrangeiros. A escola de primeiro grau possuía 1.200 alunos, e a universidade 300 estudantes de teologia, direito e medicina.[v]

A história do reformador de Genebra, Calvino, tem o seu ato derradeiro com seu testamento, no qual deixa o pouco que tinha para a Academia e para os estrangeiros: Em seguida, deixo para a Academia dez moedas de cinco xelins, e para o tesouro dos pobres estrangeiros a mesma soma.[vi] Portanto, tendo em vista essa tradição de pensamento e ação pautada na cosmovisão cristã reformada, a seguir vamos apresentar brevemente algumas orientações para a comunidade acadêmica da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

3.      A Universidade Mackenzie e o exercício da solidariedade

A fé cristã reformada é a identidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie e, por conseguinte, deve estar entranhada em sua educação confessional. Assim, como uma Universidade confessional cristã, objetivamos a formação de cidadãos que tenham habilidade intelectual e capacidade de ação para enfrentar todas e quaisquer crises que se apresentem. Não podemos pensar em construir uma nação solidária sem o empenho de seus mais capazes cidadãos.   

O momento atual é de crise humanitária. Não é apenas uma questão abstrata sobre economia ou política, mas um assunto concreto acerca de seres humanos que carecem de direitos, proteção, cuidados e refúgio. Muitos desses refugiados têm escolhido o Brasil como um lugar para recobrar a esperança, ter a oportunidade de um recomeço e, sobretudo, alcançar a justiça e a paz. Como brasileiros e universitários de uma instituição confessional cristã, temos de ser solidários e acolhê-los. Aliás, nosso país multicultural e multirracial não tem o histórico de “fechar as portas” para outros povos. À semelhança do que podemos aprender com a tradição judaico-cristã, muitos de nós aqui no Brasil somos filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. Por conseguinte, nossos pais e avós foram peregrinos e estrangeiros nas “terras dos brasis”. 

Como uma Universidade confessional cristã, municiamos nossos alunos e alunas para que sejam cidadãos prontos para o pleno exercício de direitos e deveres. Como tais, esperamos que não prescindam do valor absoluto da solidariedade.

Portanto, você que é aluno ou aluna da Universidade Presbiteriana Mackenzie tem à sua disposição os benefícios de uma cosmovisão cristã que o torna apto para o fomento de uma nação preparada para receber nossos semelhantes que sofrem e são injustiçados em outros lugares do mundo. Faça uso desse conhecimento prático e efetivo. Desse modo podemos transformar nosso Brasil em um modelo de nação solidária. Você pode fazer parte dessa história, pois, afinal de contas, fazer o bem a todos, indistintamente, é fazer valer a própria essência do Mackenzie.

 

 

Texto produzido pela Capelania Universitária Mackenzie, sob a idealização e direção do Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rev. Dr. Davi Charles Gomes.

Rev. José Carlos Piacente Junior, D.Min.

 


[i] Biéler, André. A força oculta dos protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 89.

[ii] BIÉLER, André. O humanismo social de Calvino. São Paulo: Edições Oikoumene, 1970, p. 45.

[iii] LOPES, Augustus Nicodemus. O ensino de Calvino sobre a responsabilidade da Igreja. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/calvino_igreja_augustus.htm>. Acesso em: 22 fev. 2016.

[iv] MATOS, Alderi S. João Calvino – cronologia. Disponível em: <http://www.mackenzie.br/15913.html>. Acesso em: 22 fev. 2016.

[v] LYRA, Sérgio P. R. João Calvino: sua influência na vida urbana de Genebra. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/historia/calvino_genebra_sergio.htm>. Acesso em: 22 fev. 2016.

[vi] CALVINO, João. O testamento de Calvino. Tradução: Ewerton B. Tokashiki. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/jcalvino/testamento_joao_calvino.htm>. Acesso em: 23 fev. 2016. Extraído de: Letters of John Calvin: Selected from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1980, p. 249-253.