ATEíSMO REMIX[i]

O dito mais irônico do que cômico: “sou ateu, graças a Deus”, não causaria estranheza ao apóstolo Paulo.  Em certa passagem ele afirma que os supostos ateus se tornam indesculpáveis exatamente porque o conhecimento de Deus é universal – revelado e patente até para àqueles que rejeitam esse conhecimento (os quais, em sua recusa, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” – Rm 1: 21). A negação da inescapável auto-revelação de Deus, motivada pela rebeldia e caracterizada pela supressão e distorção das evidências, resulta, ainda de acordo com o apóstolo, em obscurecimento, desonestidade intelectual e, finalmente, degradação moral (Rm 1: 19-32). De fato, a mera compreensão da dinâmica descrita pelo apóstolo já fornece base mais que suficiente para proceder à “strip-tease” do ateísmo, desnudando tanto seus contornos quanto suas motivações. 

O antigo ateísmo, entretanto, até um passado recente, manifesta-se em formas e vestes mais ordinárias. Velhas cantilenas, mas, primariamente, variações nos mesmos e batidos temas. Para Bertrand Russel, num ateísmo travestido de agnosticismo, justificava a descrença com a desculpa de “evidências insuficientes”. Já os três magos da suspeição, Freud, Nietzsche e Marx, justificavam a negação de Deus lançando dúvida sobre as motivações dos que detêm a ilusão da crença em Deus: “consolação diante das vicissitudes da vida”, diria um; “ferramenta de dominação”, exclamaria outro, enquanto o outro ainda esboçaria um leve sorriso zombeteiro, dizendo: “coisa de gente fraca para encobrir fraquezas”.

Tanto o ateísmo evidencial (com variações agnósticas, cientificistas, teológicas ou filosóficas) quanto o ateísmo da suspeição (talvez o ataque mais crítico contra a religião nos séculos XIX e XX) não apresentaram qualquer elemento ou acusação contra a fé que não tivesse sido usado anteriormente. Seus ataques eram agudos, mas passíveis de resposta: Não há evidência suficiente?  Uma discussão competente dos próprios conceitos de evidência e da racionalidade, acompanhada de uma boa dose de suspeição quanto à forma em que as evidências são coletadas e tratadas, já começa a enfraquecer a alegação. Ataques às motivações por trás da religião?  A suspeição é espada de dois gumes, corta também ad hominem em relação às motivações subjacentes a descrença. Além disso, suspeitar das motivações daqueles que creem, em nada invalida as premissas que professam. No final das contas, era sempre possível, com algum cuidado, argumentar que “o ateu não consegue achar Deus pela mesma razão que o ladrão não acha o policial”.[1]

O cenário, entretanto, já não é o mesmo. Um novo ateísmo, mais militante, mais “evangelístico” e mais marqueteiro surge no playground intelectual e popular. Um ateísmo que junta as duas correntes do passado e apresenta-as em um só pacote preparado para a condição pós-moderna. Pensadores, tais quais Richard Dawkins, Christopher Hitchins, Daniel Dennet e Sam Harris (que têm sido chamado de “quatro cavaleiros” do novo apocalipse ateísta), ou também filósofos, como Michael Onfray e A. C. Grayling, emergem quais profetas de um ateísmo de contornos quase-religiosos, um fundamentalismo ateísta ativista. Antes, um apologista cristão passional poderia expressar frustração mais ou menos assim: “Senhor, dá-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as coisas que posso e a sabedoria para não estrangular os ateus cabeças-duras que não conseguem ver-te quando estás bem à frente dos narizes deles.”[2] Hoje, ele é confrontado com homens que se autoelegem profetas de um combate contra a religião, militantes na guerra contra a crença em Deus. Crença que não mais consideram apenas ingênua e desnecessária, mas antes, perigosa – algo que o mundo atual não só não deve encorajar, mas, nem mesmo, tolerar.

Tais novos ateístas proclamam suas próprias verdades cobertos das vestes de sumossacerdotes da ciência. Suas ideias, mesmo as mais especulativas e excêntricas, não são apenas proclamadas de suas cátedras nas mais respeitadas universidades, mas são também rapidamente reproduzidas e popularizadas por meio de debates, produções televisivas, livros populares, entrevistas na mídia popular e até outdoors – quem já não viu os pôsteres colocados nos ônibus londrinos: “Provavelmente não há Deus. Portanto, deixe de se preocupar e aproveite sua vida”.[3]

É interessante a virada de jogo, pois esse novo fanatismo ateu militante, cada vez mais “fundamentalista” e radical, passa agora a fazer ainda mais contraste ao convite gracioso que o próprio Deus faz por intermédio do profeta Isaías: “Venham cá, vamos discutir este assunto. Os seus pecados os deixaram manchados de vermelho, manchados de vermelho escuro; mas eu os lavarei, e vocês ficarão brancos como a neve, brancos como a lã.” (Isaías 1: 18)

(Revista Mackenzie, ano XV - N° 62)

Rev. Dr. Davi Charles Gomes
Chanceler

 


[1] WATER, Mark, org. The New Encyclopedia of Christian Quotations. Grand Rapids: Baker Books, 1995. p. 86.

[2] Ibid.

[3] Uma gama de exemplos das ações “apologéticas” e “evangelisticas” destes novos ateístas pode ser encontrada, por exemplo, no site eletrônico do próprio Dawkins, richarddawkins.net. Na campanha para angariar fundos para as propagandas ateístas nos ônibus londrinos há oferta de Richard Dawkins dobrando os valores doados por contribuintes. As fotos dos ônibus londrinos, assim como outras ações de mídia e, especialmente, um video contra uma cosmovisão bíblica, estão em www.atheistcampaign.org e em www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/oct/21/religion-advertising (todos os acessos em 30-04-2009, 13h:50m).

 


[i] Este texto do Dr. Davi Charles Gomes foi previamente publicado como Prefácio em: R. Albert Mohler Jr. Ateísmo Remix. São José dos Campos: Fiel, 2008. 101p.