Cantando "as Excelências"

No agreste brasileiro de antanho, falecido um homem de respeito, seus amigos compareciam ao velório e "cantavam as excelências" do finado em ricas improvisações musicais.  Isso é o que conta Guilherme de Figueiredo (dramaturgo brasileiro, 1915-1997), em sua obra As Excelências ou Como Entrar para a Academia (1964), tratando com excelente humor a sua mal fadada campanha para ingressar na Academia Brasileira de Letras. Ele compara o ato de rogar pela vaga de imortal com a cantoria das excelências, lembrando que muitas vezes, o que os cantadores tinham em vista eram os favores das viúvas, de preferência as belas e endinheiradas.

Quero aqui "cantar as excelências" de um outro tipo. Algo mais parecido, em termos de domínio semântico, com o uso que Paulo de Tarso (séc. I) faz: "E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente" (1 Co. 12: 31), a "sobre-excelente glória" (2 Co. 3: 10), "se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja" (1 Tm. 3: 1) e mais algumas passagens. Mas por que esse tema? É que em um momento no qual se fala tanto em resultados, em um contexto no qual falamos tanto em buscar excelência, em que valorizamos não apenas a quantidade, mas também a qualidade dos frutos de nossos esforços como administradores, como acadêmicos, como instituição (que alegria ter visto ainda hoje as nossas "estrelas" para os cursos do CCSA no Guia do Estudante: Administração e Ciências Econômicas, 4,  Ciências Contábeis, 5!), parece urgente refletir um pouco sobre o tema da excelência.

Primeiro uma definição: excelente é algo muito bom, magnífico, distinto, vem do latim, de excellente, o particípio presente de exceliēre ("que se eleva acima de", "ser superior a"). Em sua origem, então, tem um sentido relativo, comparativo. No uso comum a relação pode ser com o geral, não carecendo de especificação daquilo a que é superior: algo é excelente porque está acima de outros "algos" congêneres.

No Mackenzie o alvo da excelência deve permear tudo o que fazemos, todos os "algos" que fazem parte da vida de uma instituição de ensino e de uma comunidade de pessoas. Isso é decorrência explícita de nossa raiz confessional e deve ser também decorrência implícita de nossa visão do mundo! Quanto à primeira, a ordem é clara: "quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Co. 10: 31) ou "tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens" (Cl. 3: 23). Já quanto à segunda decorrência, quero explicitar alguns pontos que deveriam resultar de uma visão do mundo calcada na estrutura Criação (Deus criou um mundo bom e real), Queda (este mundo está em um estado de desordem, inferior ao seu estado original) e Redenção (a ação de Deus, e dele mediante pessoas, pode trazer restauração e melhora para o mundo). Listo então três aspectos de excelência que creio serem bons alvos para nós no Mackenzie:

1. Nos processos: o conteúdo que queremos produzir e o processo pelo qual desejamos produzi-lo devem expressar uma busca real de qualidade, uma busca sempre crescente. A "substância" que queremos produzir (seja produto físico seja produto intelectual, uma patente ou uma compreensão sobre o estado das coisas) deve sempre ter uma qualidade distinta, superior.

2. Nos relacionamentos: os processos em que buscamos produzir um conteúdo muito acima da média não ocorrem no vácuo e sim em um contexto de comunidade (acadêmica, científica, produtiva), o que implica em relacionamentos.  Se os relacionamentos que subjazem e permeam nossos esforços para gerar excelência não demonstrarem também excelência relacional (no trato, na fala, na consideração do outro), a forma como buscamos excelência acabará por negar o próprio objeto de sua busca--a excelência.

3. De resultados: não basta que o produto e os processos expressem ótimos resultados, que os relacionamentos que subjazem a busca por excelência sejam igualmente distintos. É preciso que essa característica seja refletida em resultados, manifestações qualitativas e quantitativas que demonstram para nós mesmos e para outros externos ao nosso ambiente que aquilo que fazemos e o como fazemos se distingue do que é feito por outros e de outras maneiras.

Esse desejo por excelência não deve ser a busca arrogante por mera superioridade e sim um esforço por fazer e oferecer o melhor, como expressão de boa mordomia daquilo com o qual fomos investidos. A tradição Protestante-Reformada insistia que não eram apenas os que prestavam serviço religioso que traziam glória a Deus, mas que o sapateiro que produzia um sapato excelente, com processos excelentes e que se distinguia no trato de seus auxiliares, colegas e clientes, vendendo seu "excelente" produto por um preço justo e retirando da venda de seu produto o seu merecido sustento, esse sapateiro também trazia honra para seu Criador!

(Revista Mackenzie, ano XV - N° 59)

 

Rev. Dr. Davi Charles Gomes
Chanceler