Conhecimento, Liberdade e Jazz

Ainda criança, ouvi um homem adulto dizer ao meu pai: "Pastor, não quero mais aprender nada da Bíblia". Olhando para aquele homenzarrão de meia idade o Rev. Wadislau quis saber a razão e qual não foi a surpresa ao ouvir a explicação: "É que quanto mais eu sei, maior a minha responsabilidade, e já é difícil 'pra burro' cumprir  as que tenho hoje, imagina se eu aprender ainda mais..."

Há uma ponta de verdade no raciocínio confuso do seu Afonso.  Realmente o conhecimento representa um aumento de obrigações e isso, ainda que não devesse, pode causar um certo temor, pois o conhecimento traz obrigações, e a consciência de nossas limitações. Em contrapartida nós ansiamos por liberdade.

O compositor Ivan Lins, em uma canção de 1981, registra sua compreensão da relação entre conhecimento e responsabilidade: "Daquilo que eu sei / Nem tudo me deu clareza / Nem tudo foi permitido / Nem tudo me deu certeza..."

De forma mais específica ainda, ele conecta aquilo que sabe, com sua liberdade: "Daquilo que eu sei / Nem tudo foi proibido / Nem tudo me foi possível / Nem tudo foi concebido..." Ele conclui então dizendo que o que ele não fez, à luz daquilo que sabia, foi fechar os olhos, tapar os ouvidos, escolher a ignorância: "Só não lavei as mãos / E é por isso que eu me sinto / Cada vez mais limpo".

O conhecimento trás, de fato, obrigações e responsabilidades.  No campo acadêmico da reflexão filosófica sobre o saber, a epistemologia, nós consideramos essas obrigações como o aspecto deontológico do conhecimento.  Será que seu Afonso, então, não teria um pouco de razão em querer limitar suas obrigações limitando seu saber? Será que nossa busca por conhecimento, como é natural em um ambiente de universidade como o nosso, não vai acabar representando para nós apenas mais peso, mais obrigações, mais cadeia e amarras?

Jesus, de certa feita, falou a seus interlocutores: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". (João 8: 31-32). Ele não relaciona o conhecimento da verdade apenas às obrigações, mas, em uma conexão mais profunda, ele atrela o conhecimento da verdade à liberdade!

Como é que juntamos conhecimento, responsabilidade e liberdade? Talvez devamos começar ajustando nosso entendimento do que é liberdade.  É comum presumir que ela seja a mera ausência de qualquer compulsão ou limitação externa, um tipo simplesmente de "liberdade de...". Assim, qualquer coisa que imponha algum limite ou estrutura para a realização dos desejos e da ação, é uma restrição da liberdade.

Mas, existe outro conceito de liberdade, um conceito mais profundo, que pode ser ilustrado na resposta que Martinho Lutero deu quando foi exigida a sua obediência à Santa Sé e o abandono de suas crenças e teses: ele afirmou que sua consciência era "cativa da Palavra de Deus" e que por isso ele estava livre para não se submeter à ordem humana hierárquica.

Note que essa não é uma liberdade “de" e sim uma "para", uma liberdade baseada na verdade que possibilita escolher aquilo que é bom, e o que parece certo.

A ignorância nos prende os pés como um charco, um pântano, onde parecemos livres apenas porque não nos é exigido qualquer movimento e direcionamento, mas não saímos do lugar. 

Mas, o conhecimento legítimo e o conhecimento da "Verdade” funcionam como terreno firme, aonde os pés bem firmados encontram a base para escolher caminhos e direções que produzam frutos de responsabilidade e liberdade.

Mas o que é que o Jazz do título tem a ver com tudo isso? É que dos vários estilos de música que aprecio, e sou grande apreciador da música, O Jazz sempre me fascinou em algo que ilustra tudo isto que eu venho dizendo aqui -- ele ilustra de forma linda a beleza da perfeita harmonia entre forma e liberdade. Alguém que simplesmente tome um instrumento e improvise sem regras e sem direcionamento pode até conseguir, intuitivamente, fazer alguma coisa interessante. Porém, quando um músico hábil, conhecedor das regras de harmonia, melodia, ritmo, etc., parte de toda essa estrutura e, respeitando a boa forma, descobre o espaço correto para exercer sua criatividade e liberdade improvisando com paixão e em equilíbrio com outros músicos, aí é Jazz!

 (Revista Mackenzie, ano XV - N° 58)

Rev. Dr. Davi Charles Gomes
Chanceler