SOBRE NATAL, ANO NOVO E HORIZONTES

 

Tenho pensado sobre Brasília ultimamente.  Não, não são as confusões que vem de lá e a indiferença que parece vir de todos os lados… Na verdade não consigo é parar de pensar em horizontes, daí minha memória geográfica da vastidão do horizonte do planalto central, tão bem cantada pelo Toninho Horta (lembra da canção?).  Mas é de outros horizontes ainda que me ocupo aqui: horizontes e nosso campo de visão.  Observe a figura ao lado.  Não consigo deixar de rir toda vez que olho para ela e penso nas decisões míopes que já fiz na vida.  O título da figura deveria ser: “Ah! Se eu pudesse ter visto a coisa mais de cima…”. É irônico como raramente temos consciência das implicações futuras dos nossos atos, e isso acontece porque nossos horizontes são sempre limitados. 

Davi, o grande rei de Israel, já ungido pelo profeta de Deus tinha a promessa de que reinaria sobre a nação de Israel.  No entanto fico imaginando como é que ele deve ter se sentido quando estava fugido e refugiado numa caverna, com o rei Saul ainda no trono e tentando tirar a sua vida.  Imagino Davi no meio de sua crise, se perguntando: “Que promessa é essa que Deus me deu? Pela minha situação hoje eu acho é que Ele se enganou! ”. 

Da mesma forma, imagino Moisés, após seu encontro com Deus no deserto, tendo recebido a promessa de que libertaria seu povo em nome do Senhor. Moisés resistiu inicialmente à idéia, mas finalmente se submeteu ao Senhor e foi falar a Faraó. Só que Faraó disse que não deixaria o povo ir, e foi preciso que Deus enviasse dez pragas para convencê‑lo. Eu imagino como é que Moisés deve ter se sentido: “Que é isso companheiro? Deus me manda vir aqui arriscando a minha vida, e daí ele mesmo endurece o coração do Faraó para não deixar o povo ir? ”.

Me recordo também quando eu estava aprendendo o uso de ferramentas para a análise e representação de sistemas complexos, lá em Boston (EUA).  Um dos exemplos usados para explicar a importância de mapear esses sistemas para evitar resultados contraproducentes com efeito retardado foi a forma como o mundo tinha lidado com a fome na Etiópia (é, já faz um bom tempo!). Inicialmente, a reação global ao horror da fome que varreu aquele país foi o envio imediato de grandes doações de trigo e outros insumos.  Esse auxílio imediato salvou a vida de muita gente, entretanto, o influxo de milhões de toneladas de insumos alimentares gratuitos naquela nação produziu, com efeito retardado, uma completa quebra no mercado interno produtor de alimentos.  Os poucos agricultores que tinham sobrevivido a seca e continuado a produzir alimentos viram despencar o preço dos insumos que produziam e quebraram, assim, o ciclo se retroalimentava de forma agravada. Uma visão com horizontes mais abrangentes teria evitado esse equívoco!         

O que é que o perseguido rei Davi, o perplexo Moisés ante o endurecimento do coração de Faraó e a quebra de pequenos agricultores na Etiópia dos anos 80, têm a ver entre si? O ponto em comum é o sofrimento que resulta de não poder ver as situações gerais e as nossas circunstâncias especiais de uma perspectiva mais alta, mais distante, mais ampla. 

E o Natal, onde fica nessa história? Essa é fácil: Todos nós sofremos de uma visão intrinsecamente míope da vida—parte da condição humana, não é?  O Natal, como a celebração do momento em que Deus encarnou, em que a eternidade penetrou marcadamente o tempo e o espaço, nos oferece uma lembrança importante! Também é um momento bom de reflexão em preparo para um novo ano. A presença de Deus conosco (esse é o significado de Emanuel, um dos nomes de Jesus) tem resultados práticos: essa é uma questão de perspectiva, de ponto de vista, é também uma questão de horizontes. Em meio à nossa inevitável miopia, passamos a ter um ponto de referência, um ponto de contato com aquilo que é eterno. Talvez isso não mude nossas circunstâncias imediatas, mas vai colocar nossos anseios e dramas em uma perspectiva mais adequada, vai deixar a nossa vida um pouco mais equilibrada – Quando se aprende a ver a vida cada vez mais sintonizados com a perspectiva de Deus é a graça desse Deus que fica mais realçada, e essa graça, assim como a vida, é bonita, é bonita...

(Revista Mackenzie, ano XV - N° 60)

Rev. Dr. Davi Charles Gomes
Chancelaria