UMA PEQUENA CONFUSÃO

                O jornal noticiou assim: “Um desempenho melhor no Ensino Médio resulta em salários maiores no momento em que o jovem entra no mercado de trabalho. A conclusão é da pesquisa “A relação entre o desempenho escolar e os salários no Brasil”. Confesso que me lembrei daquela piada do cientista que estudava a aranha em seu laboratório. Foi arrancando-lhe as patas para saber com que mínimo de pernas ela ainda conseguiria andar e, finalmente, quando a aranha não mais atendeu a seu pedido de “anda aranha”, concluiu que “aranhas sem patas ficam surdas. ”

                É claro que uma pesquisa como aquela sobre educação contribui para mostrar a CORRELAÇÃO entre as notas médias de Português e Matemática que os alunos do Ensino Médio obtiveram e a média de salários alguns anos mais tarde. Mas a correlação indicada não sustenta, sozinha, a conclusão dos jornais. Imagine então o professor que leu essa matéria dizendo aos alunos que iria conceder notas melhores para que o salário deles não fosse prejudicado no futuro. É isso? E se os fatores que fizeram com que aqueles alunos tivessem uma vantagem competitiva na sala de aula forem os mesmos que ainda estão em efeito na vida profissional?

                Mas, deixando de lado a questão da matéria de jornal, tudo isso me faz lembrar o grande perigo que os pesquisadores ou qualquer pessoa sempre enfrentam, de certo modo: confundir a observação de uma correlação entre dois ou mais elementos com a identificação de uma relação causal – só porque uma coisa parece acompanhar a outra quer dizer que elas têm uma relação de causa e efeito?

                A sabedoria que Deus apresenta nas Escrituras é mais profunda e ajuda a pessoa a ver relações de causa e feito de uma forma menos simplista: tal como a relação entre raízes e frutos. Isso é especialmente valioso quando o que se quer entender são as relações causais em questões humanas e relacionais – como educação, bem-estar emocional e relacionamentos humanos e societários. Jesus falou que uma árvore boa produz bons frutos e estendeu essa relação dizendo que a boca das pessoas fala a partir daquilo que vai no coração (Lucas 6:43-45). A relação de causa e consequência é então entendida como motivos do coração, de raízes. Não se trata apenas de uma correlação entre raízes e frutos, entre disposição do coração e aquilo que alguém faz ou diz.

                Na verdade, das raízes brotam troncos e galhos, e, então, vêm frutos, do mesmo modo que o coração motiva aquilo que alguém pensa, diz e faz. Blaise Pascal ainda vem lembrar que “a razão tem razões que nem a própria razão entende”. E aí, como é que fica? Quem for puro de coração vai produzir frutos bons e quem não for não vai. Só que, quem é realmente “puro de coração”? Alguém que tenha raízes tão boas e puras, livres de corrupção, e que só produzam frutos doces? Ainda de acordo com a sabedoria bíblica, a resposta seria “não há nenhum justo, nem um sequer, não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus, todos se desviaram... não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:10-12). Daqui de dentro, daquilo que chamam de “condição humana”, as raízes de todas as pessoas, ainda que tenham potencial para produzir o bem, sempre acabam produzindo também frutos amargos. E aí, como fica? O velho poeta e rei Davi, em um de seus poemas mais bonitos, mostra como é que se faz um tratamento de raiz:

                “Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria, e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espirito estável” (Salmo 51:7-10).

                De volta a Jesus, no Evangelho de João 15, o tema raízes e frutos aparece outra vez, na descrição de Deus como jardineiro que trata a planta para que produza bons frutos. E afinal, não é isso que se quer?

(Revista Mackenzie, ano XV - N° 57)

Rev. Dr. Davi Charles Gomes
Chanceler